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A morte e o seu caráter Escatológico
por: Frei Alexandre, SIA

INTRODUÇÂO

 

A escatologia cristã adaptou a origem do homem ao ser sobrenatural que com sua morte regressa ao caminho espiritual, transcendental. A partir do estudo da escatologia, se faz necessário  analisar sobre as realidades que nos envolvem: morte, juízo, céu e inferno. Será realmente este o caminho traçado por todos os humanos? Todos irão perecer, porque até o filho de Deus pereceu. Depois da morte segue-se ao juízo para assim aguardar a parusia do Cristo para definir quem se salvará (céu) ou se condenará (inferno)? Essa reflexão  é pertinente para que aja uma excelente reflexão numa abordagem escatológica tratada neste trabalho.

Falar de morte pode se parecer um tanto quanto incômodo, desconcertante, intrigante, assustador. Vivemos numa cultura do medo, da insegurança. A todo instante,  o quadro é o mesmo: violência, criminalidade, morte.  Morte física, morte  psíquica morte estrutural, morte espiritual. O mundo banalizou a morte. A morte parece ser vista nesta sociedade secularizada como a pior das fatalidades, como a catástrofe humana, como  o fim de tudo, a desgraça total. Viver  parece ser inútil. Para que tanta correria, se  o fim é a morte mesmo? “Morreu, acabou-se”.

A vida homem pauta-se numa visão totalmente voltada a si mesmo, e se esquece que as coisas últimas é que constituem o horizonte transcendente da existência. Balthasar apresenta o homem como uma criatura que por essência se quebra diante das suas debilidades, e este mesmo homem se sente profundamente afetado diante das coisas que poderão lhe acontecer. O homem, conforme vemos tem medo de morrer. Todavia, este mesmo homem, que é senhor de si, não entende que a morte deve ser encarada como castigo, como pagamento pelos pecados, não como condenação conforme o pensamento da sociedade antiga, mas como nos diz Balthasar, a morte pode ser encarada como um momento de redenção, pois é na morte que o homem encontra a sua plenitude diante de Deus. [1] A morte pode ser encarada como um momento de redenção, pois na morte é que o homem encontra a possibilidade de encontrar-se frente-a-frente com o Amor Ressuscitador de Deus. A morte é condição e uma necessidade humana. Mas por que a morte gera tantos tabus na humanidade pós-moderna?

 

 

 

A ESCATOLOGIA EM NOSSO TEMPO

 

A morte é uma realidade que acompanha toda a criatura existente, e  reverte-se ao ser humano numa  dimensão de transformação. A morte é a passagem  desta para a experimentação do amor salvífico de Deus. É  o reencontro com o  seu criador. É a realização total e definitiva  do adorador e o  Deus-adorado.

Quando a existência fica relativizada, ela perde sua seriedade. Na visão da escatologia cristã, a morte assume um sentido mais sublime e bem diferente.

Segundo Balthasar essas são marcas dos novos tempos que predicam as futuras realidades, ao qual cada ser humano está imerso, pois uma vez que o homem experimentou a sua fragilidade, experimentou a sua debilidade ele nunca mais foi o mesmo. A morte, conforme nos apresenta Balthasar, causa medo, angústia, solidão e a cada dia que se passa menos se compreende a própria vida.

Quando dizemos que a morte não é o fim último, mas o nascimento para Deus, afirmamos que é em Deus que a nossa vida realmente existe. Balthasar afirma que os sistemas que os povos idealizaram para conviver com a morte são necessariamente ensaios para protestar contra a sua dureza e definitude.[2] Entretanto, quando esses mesmos povos passaram a encarar a morte como o fim último, passou-se a temê-la ao invés de compreendê-la como sendo algo inerente ao ser humano e que chegará para todos, pois todos estão sujeitos às ordens naturais da vida.

Ao longo de tantos períodos o assunto das coisas últimas ficou deformado por conta de pensamentos filosóficos e teológicos, pois se encarava esses assuntos dentro de um paradigma de medo. Falar em purgatório era a mesma coisa que falar “já estou no inferno”. Todavia, a escatologia de Balthasar não coloca esses assuntos dentro de moldes técnicos, mas dentro de moldes de possibilidades diversas, pois o homem foi feito para viver na felicidade de Deus. Céu e inferno, segundo nosso autor, se encontram dentro de um mesmo universo. Entretanto, o que os difere? O que os difere, segundo Balthasar é a abertura que temos para a moção de redentora de Deus em Jesus Cristo[3].

A mensagem cristã dos últimos tempos, afirma que Deus é o fim último do homem. Deus é a sua verdade, afirma Balthasar. É a sua salvação e até mesmo a sua perdição. Mas o que isso quer dizer a nós?

Ora, quando Deus cria o homem, Ele lhe proporciona dois caminhos totalmente distintos entre si. Um caminho leva o homem a contemplar a Deus na sua vida e através de suas ações. Este caminho, segundo Balthasar é a salvação do homem que se abre à generosidade infinita de Deus; que se abre à gratuidade abundante da kénosis do Filho de Deus. Já o outro caminho, leva o homem a desviar-se dos caminhos perfeitos de Deus. O inferno, segundo nosso teólogo é a porta de entrada do homem na perdição eterna. É a passagem da condição de resgatados para a condição de condenados. Mas é Deus que nos joga no inferno? Não, não é Deus. Balthasar afirma que Deus é céu para quem o aceita e inferno para quem o rejeita. Logo, o inferno é uma condição aberta pelo homem a si mesmo, pois o caminho que Deus prepara ao homem é um caminho de Graça e Ressurreição. Existe uma relação intrínseca entre Deus e o Homem. Esta relação foi aberta pela mediação do Filho de Deus, que ao assumir a condição humana, tirou o homem da escravidão da morte e o trouxe a viver numa relação de vida eterna, conforme a teologia joanina nos expressa.  [4]

Ao afirmarmos que o acesso à vida eterna foi-nos aberto por Cristo, afirmamos que toda a criação sofreu uma alteração na sua essência sobrenatural, pois ao encarnar-se, todo o universo sofreu a consumação da salvação na sua integridade, e o ser Humano foi dignificado segundo a imagem e a filiação do unigênito de Deus. Mas por que Cristo se encarnou? Ele se encarnou para trazer a natureza humana à sua configuração primeira, que é de santidade junto de Deus. Ele a santificou. Lógico, que a encarnação não se dá apenas por conta de uma simples configuração, mas por amor. Tanto foi este amor, que Deus rebaixou-se à condição de homem. E este homem rebaixado por virtude do Espírito Santo é Cristo, Senhor único da história, protótipo do Pai, antes de todos os séculos.

Sua consciência humana, conforme nos escreve Balthasar, constitui a base de sua existência. Essa mesma consciência é que leva do Filho de Deus a se dar à humanidade, pois em tudo ele viveu a sua condição, exceto na condição de pecado. Jesus nas Sagradas Escrituras é chamado por Paulo de novo Adão, não apenas pelo fato dele ter reconciliado toda a criação em Deus, mas pelo fato dele ter descido aos infernos, numa vacuidade total de solidão e ao ressuscitar, elevou o homem à plena comunhão com seu criador.

Na consumação do amor redentor de Jesus a debilidade da morte foi extinta de uma vez por todas. [5] A sua ressurreição é intrinsecamente um acontecimento salutar e não uma condição para alguém se achegar diante do trono glorioso de Deus, a fim então de ser julgado, como pregava o judaísmo antigo. Sua ressurreição é interpretada como o “amém” de Deus sobre o homem Jesus.

De acordo com a visão apresentada por Balthasar, à ressurreição de Jesus fez com que a História da Aliança tomasse novos rumos, pois esta mesma aliança não seria mais constituída com o sangue de animais, mas com o sangue precioso do Deus feito homem, e por conta disso, o homem, a humanidade, a natureza e todo o cosmos como conhecemos torna-se parceira de Deus por conta da Aliança definitiva firmada na encarnação do Verbo Divino.

Até aqui, nós percorremos uma trajetória em Balthasar para falar ressurreição de Jesus como acontecimento, mas e aqueles que adormeceram em Jesus. Há eles é garantida essa ressurreição? Como pensar a eternidade em nosso tempo hoje?

Para João a ressurreição dos mortos é um acontecimento já iniciado na decisão escatológica daquele que adere à pessoa de e à revelação de Cristo. Este acontecimento é depois continuado mediante a fé, pela qual se experimenta e se conhece o fim dos tempos. A ressurreição para a vida não acontecerá apenas num dia longínquo, no fim dos tempos, mas é antecipação já para o tempo presente Todavia, a teologia joanina integra também a esperança de uma consumação, não certamente sob a forma de uma história cósmica, mas como a meta final do discípulo que acredita na vida eterna, para a qual se orienta a comunidade de salvação.

 Paulo não restringe a participação na ressurreição de Cristo à ressurreição escatológica dos mortos, mas vê também o presente dos cristãos na perspectiva da nova vida que se obtém na escatologia. O essencial consiste em que a vida presente dos cristãos seja uma participação da vida do Ressuscitado e que por isso mesmo seja uma vida nova com uma dimensão escatológica. É certo que jamais a vida presente dos cristãos é apresentada pelo Apóstolo sem referência alguma à participação futura e definitiva na vida do Ressuscitado. Contudo, em razão de ser acentuada constantemente a dimensão atual da participação na ressurreição de Cristo, a ressurreição futura aparece só como uma coroação daquela vida que os cristãos já possuem no tempo presente. A ressurreição de Cristo é uma antecipação do fim, contendo em si de algum modo o conjunto dos bens futuros. Não se trata tanto de algo que vem do futuro ao encontro do homem, mas é antes o homem que a partir do acontecimento passado da ressurreição de Cristo vai ao encontro dela. [6]

Nós comentávamos que o encontro do Homem com Deus se dá pela abertura de Jesus e essa abertura é que constitui um eterno descanso em Deus. Balthasar fala que o céu está onde Deus está. No início do nosso texto dizíamos que Deus é céu para quem o aceita e inferno para quem o rejeita. Aquele que o aceita já está no céu; já está na plenitude, pois esta plenitude foi garantida pelo Filho. É a volta do homem para a sua origem, pois o homem quando mergulhado na grandeza de Deus não sofre mais o aprisionamento do tempo e do espaço, mas tem o seu descanso eterno no Senhor. A esperança cristã afirma isso, pois é nisso que ela crê, segundo Balthasar. [7]

 

Conclusão

 

A contrapartida para todas as dúvidas existente quanto à finitude do homem, está na ressurreição. Jesus deixou-se rebaixar pelos nossos pecados. Ele desceu aos infernos, para ascender na glória. A morte de Jesus, não foi derrota, mas vitória. A ressurreição de Jesus abarca a todos. Ele liberta a todos da morte garantindo vida plena. Por isso, o homem em hipótese alguma se separará de Deus, pois está ligado espiritualmente ao seu filho Jesus. Deus nos elegeu com predileção.

Toda a reflexão de Balthasar é cristólogica. Jesus é o ponto de partida para toda uma vida espiritual consciente, passando pela morte (transformação) e chegando a plenitude que é o amor de Deus. Jesus nos adentra no amor de Deus, a Igreja vai colaborando também com seu testemunho e seu anúncio.

A eternidade não pode ser relativizada. Ela é única, é uma realidade no tempo de Deus, que começa a ser preparada no aqui e no agora, mas apresentada a nós todos os instantes de nossa vida. É justamente o amor de Cristo que lançará todos nos braços do PAI.  Balthasar contraria todas as teorias pessimistas sobre a morte, ele dá um sentido novo á morte em Cristo Jesus. Ele será o caminho que conduzirá a Deus. Julgando-nos e salvando-nos.

Entretanto, o homem precisa ligar-se intimamente a Jesus que é arquétipo de toda graça salvífica para o homem. Isso torna o Cristianismo a religião que aponta a salvação, sem desmerecer as outras. Pois no cristianismo se manifestam e abrigam as dimensões eternas e absolutas da vida única humana e divina. O fim último do homem é o recomeço da vida nova em Deus.

 

 

 

REFERÊNCIA

 

BALTHASAR, Hans Urs Von. Escatologia em nuestro tiempo – Las cosas ultimas del hombre y el cristianismo. Madrid: Encuentro, 2008.



[1] BALTHASAR, Hans Urs Von. Escatologia em nuestro tiempo – Las cosas ultimas del hombre y el cristianismo. Madrid: Encuentro, 2008, pp. 12-15

[2] p. 15

[3] p. 23

[4] p. 32-39. 44

[5] pp. 40-49

6 pp. 49 - 109

[7] pp. 110 - 115

 
25/08/2009
>> Agenda

13/10/2010 - Encontro Vocacional

ORAÇAO PELAS VOCAÇÕES INACIANAS

 

 

Ó Jesus, Divino Pastor, Tu que nos chamaste à vida, tornai-nos sensíveis ao chamado para o serviço do Reino. Desperta nos jovens a generosidade de coração para serem santos e santos no Amor e para que sejam testemunhas radicais de Jesus Cristo. Que ao responderem Sim à Vida Consagrada Inaciana, busquem serem sinais vivos de Cristo libertador, na total disponibilidade a Deus, no Serviço Missionário da Igreja. Cativados pelo carisma inaciano, Dom do Espírito Santo ao nosso Pai Fundador, sejamos impulsionados para a missão de levar o mundo em desordem à Unidade na Vida Divina. Ó Jesus, Divino Pastor, que a vivência do Carisma Missionário Inaciano ajude-nos a ser sinais da vida e da esperança, a exemplo de nosso Patrono, Santo Inácio de Antioquia. Que como irmãos, irmãs, leigos consagrados ou sacerdotes, sejamos uma só família em sintonia com o Tom de Deus, fiéis à vocação a que fomos chamados! Que nossa Consagração seja uma forma especial de pertencer a Cristo, na adesão amorosa ao Evangelho e ao Reino de Deus. Como Maria, Mãe do Divino Pastor, cada um de nós possa dizer sim à sua vocação.

 

Amém!

 

HINO A SANTO INÁCIO

Imitador dos apóstolos, seu sucessor em seus tronos. Praticando as virtudes achaste, inspirado que foste por Deus, o caminho da contemplação, dispensando assim fielmente, a Palavra que é a Verdade. Pela fé derramaste o teu sangue, óh pontífice e mártir Inácio, pede ao Senhor que nos Salve!.

Amém

ORAÇÃO DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA

Deus, Todo Poderoso, nós bendizemos Vosso Nome pelo bispo e mártir Inácio de Antioquia, que ofereceu-se como trigo a ser moído pelos dentes das feras, a fim de apresentar-se a Vós como um pão puro em sacrifício. Aceitai, nós vos pedimos, a doação que fazemos de nossas vidas e dai-nos participar da oferta pura e sem mancha de Vosso Filho Jesus Cristo, que Convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo!

Amém!

 
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