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A Escatologia em nosso Tempo
por: Frei Alexandre, SIA

A ESCATOLOGIA EM NOSSO TEMPO

 

Por muito tempo a escatologia era “a doutrina das últimas coisas”, ou “a doutrina do eschaton“. Com a expressão “últimas coisas” se entendiam eventos que irromperiam, no fim dos tempos, por sobre o mundo, a história e os homens. Entre esses acontecimentos se contava a volta de Cristo em glória, juízo universal e a consumação do Reino, a ressurreição universal dos mortos e a nova criação de todas as coisas. Esses acontecimentos finais irromperiam de fora da história para dentro dela e poriam fim à história universal, dentro da qual tudo se move e agita. Mas pelo fato de tais acontecimentos terem sido adiados até o “último dia”, eles perderam sua significação orientadora, animadora e crítica para os tempos passados antes do fim, no decorrer da História. Desta forma, as doutrinas sobre o fim último vegetavam esterilmente nas últimas páginas da Dogmática Cristã. Eram como que um “frouxo apêndice”, que levava uma como existência apócrifa e sem maior importância. Não tinham nenhuma relação com os ensinamentos sobre a Cruz e a Ressurreição, Exaltação e Senhorio de Cristo, nem eram conseqüências necessárias delas. Estavam tão longe delas como uma pregação no dia de Finados o está da Páscoa. Na medida em que o Cristianismo se tornou a organização herdeira da religião do Estado romano e teimosamente reivindicava para si as atribuições e pretensões do mesmo, a escatologia foi deixada, juntamente com sua eficácia mobilizadora e revolucionária dentro da história agora vivida, às seitas entusiastas e fanáticas e aos grupos revolucionários. Enquanto a fé cristã separava de sua vida diária a esperança no futuro, que a sustentara no princípio, e transferia o futuro para o além ou a eternidade – apesar de os textos bíblicos que ela transmitia regurgitarem da esperança messiânica futura para a terra – a esperança aos poucos abandonou a Igreja e em formas as mais deturpadas sempre de novo se voltava contra a Igreja.

Na realidade, escatologia é idêntica a doutrina da esperança cristã, que abrange tanto aquilo que se espera, como o ato de esperar, suscitado por esse objeto. O Cristianismo é total e visceralmente escatologia, e não só a modo de apêndice; ele é perspectiva e tendência para frente, e por isto mesmo, renovação e transformação do presente. O escatológico não é algo que adere ao Cristianismo, mas é simplesmente o meio em que se move a fé cristã, aquilo que dá o tom a tudo o que há nele, as cores da aurora de um novo dia esperado, que banham tudo o que existe. De fato, a fé cristã vive a Ressurreição do Cristo crucificado e se estende em direção às promessas do retorno universal e glorioso de Cristo. Escatologia é “paixão” nos dois sentidos de sofrimento e tendência apaixonada, que têm sua fonte no Messias. Por isto mesmo a Escatologia não pode ser simplesmente parte da doutrina cristã. Ao contrário, toda a pregação e mensagem cristã têm uma orientação escatológica, a qual é também essencial à existência cristã e à totalidade da Igreja. Por isto, existe um único verdadeiro problema da teologia cristã, proposto pelo seu próprio fim, e, através dela, proposto à humanidade e à reflexão humana: o problema do futuro. Com efeito, aquilo que encontramos nos Testamentos bíblicos como objeto de esperança é “o Outro”, algo que não podemos pensar ou imaginar a partir das experiências que já tivemos e da realidade dada, mas que nos é apresentado como promessa de algo “novo”, objeto de esperança que está no futuro de Deus. O Deus de que aí se fala não é um deus intramundano ou extramundano, mas o “Deus da esperança” (Rm 15,13), um Deus que tem o “futuro como propriedade do ser”, tal como se apresenta no Êxodo e nos profetas de Israel, um Deus que não podemos ter em nós, nem está acima de nós, mas sempre diante de nós, que nos encontra em suas promessas sobre o futuro, a quem por isto mesmo não podemos “possuir”, mas só ativamente aguardar em esperança. Por conseguinte, a teologia correta deve ser pensada a partir de sua meta futura. A escatologia não deve ser o seu fim, mas o seu princípio.

A fé cristã anuncia a escatologia. Realidade maravilhosa que intermedeia o presente da pós-modernidade e o definitivo e universal da ética. A escatologia cristã não se define como vulgarmente se entende como realidade a acontecer unicamente no final dos tempos.  Confundem-na com a intervenção apocalíptica da destruição deste mundo e da inauguração do mundo futuro. O pensamento apocalíptico paralisa. Deixa as pessoas na expectativa de evento para o qual elas se sentem absolutamente impotentes e em pura passividade. A escatologia, porém, constitui-se da dialética do “já” e do “ainda não”. Verdadeiro fundamento para a ética. Existe um já, sem o qual o presente não teria importância e também a ação humana. Nele nos situamos. Dele somos responsáveis. O já dá seriedade e gravidade ao presente. E por quê? Ele carrega dentro de si e aponta para o universal e absoluto da eternidade que “ainda não” se cumpriu, mas já se antecipa nos nossos atos. Não elimina o presente. Antes o valoriza. Não o reduz ao simples usufruir. Emprenha-o de eternidade, ao dar-lhe assim dimensão ética.

A escatologia conjuga o presente com o peso de eternidade. Anuncia-lhe a existência já na história dos humanos. Assim salva o futuro da alienação e dá responsabilidade e seriedade ao presente. E por que consegue tal dialética? Simplesmente porque o eterno de Deus se fez história humana, presente, dando-lhe valor também infinito e dotando-a de eternidade.[1]

Partindo desta premissa, nós compreendemos o que Hans Urs von Balthasar quer dizer quando ele aborda que o homem por natureza é uma criatura cuja existência se quebra sem haver se completado[2].

Não podemos falar da escatologia balthasariana sem falarmos antes da perspectiva da morte, não como fim último, mas como um fato possível da redenção em Cristo Jesus. A morte pode ser encarada como um momento de redenção, pois na morte é que o homem encontra a possibilidade de encontrar-se frente-a-frente com o Amor Ressuscitador de Deus[3]. A morte é uma condição e uma necessidade humana. Mas por que a morte gera tantos tabus na humanidade pós-moderna?

Quando dizemos que a morte não é o fim último, mas o nascimento para Deus, afirmamos que é em Deus que a nossa vida realmente existe. Todavia, devido à banalização da morte como sendo apenas um espetáculo, um show de TV que serve para vender revistas e jornais, nós perdemos a dimensão de sacralidade da morte. Não mergulhamos neste lado interno da vida que nos leva a contemplar a realidade mais sublime de nossa existência humana.

Balthasar afirma que os sistemas que os povos idealizaram para conviver com a morte são necessariamente ensaios para protestar contra a sua dureza e definitude.[4] Entretanto, quando esses mesmos povos passaram a encarar a morte como o fim último, passou-se a temê-la ao invés de compreendê-la como sendo algo inerente ao ser humano e que chegará para todos[5].

Heidegger, pensador existencialista do século XX, defende que a morte não é um fim último, as uma possibilidade. Diz Heidegger:

 

“Só na angústia subsiste a possibilidade de uma abertura privilegiada na medida em que ela singulariza. Essa singularização retira o ser-aí de sua decadência, e lhe revela a autenticidade e inautenticidade como possibilidades de seu ser” (1989a, §40, p. 255). A angústia singulariza, embora não seja ela mesma singular. Nesta situação o homem é chamado pela voz do ser a experimentar a maravilha do fato de que o ente é, em outras palavras, a antecipar-se diante da existência fática e lançada na decadência, donde se segue a estrutura fundamental da preocupação enquanto cuidado pela existência. Assim, a angústia desperta para a morte, enquanto dado temporal mais significativo da existência, e revela a finitude da existência humana, o fato de que o homem tem um fim, que ele morre e que sua existência acaba, ou seja, remete a um outro conceito fundamental de Heidegger, que é o ser-para-a-morte. A morte constitui uma limitação da unidade originária do ser-aí, significa que a transcendência humana, o poder-ser, contém uma possibilidade de não-ser. Diz Heidegger: “o ‘fim’ do ser-no-mundo é a morte. Esse fim, que pertence ao poder-ser, isto é, à existência, limita e determina a totalidade cada vez possível do Dasein”. Entretanto, o caráter aparentemente negativo da morte apenas se coloca quando a morte é tomada no sentido vulgar de ser o momento do término físico da vida. Mas há um lado positivo na morte, isso se o ser humano assume o seu ser-para-a-morte, isto é, leva em conta que a morte é um fenômeno da própria existência e não do término dela. A morte apenas tem sentido para quem existe e se põe como um dado fundamental da existência mesma. Assumir o ser para a morte, porém, não significa pensar constantemente na morte e sim encarar a morte como um problema que se manifesta na própria existência. Depois de termos morrido não podemos mais sentir a morte. É um fato que a morte é algo que apenas podemos experimentar indiretamente, no outro que morre[6].

 

Outro importante ponto escatológico é a questão do purgatório.

Segundo Libânio e Bingemer (1985), o purgatório pode ser considerado, por conseguinte, como um processo pessoal, histórico, em que a pessoa vai superando as suas contradições, seus egoísmos, até aquele momento final de encontro com Deus. Aí os últimos resquícios serão apagados. No encontro com Deus, a transparência total de nossa consciência pela força da luz de Deus permitirá que rejeitemos clara e livremente essas últimas incoerências. Será um início da beatitude definitiva, porque isso acontece envolvido pelo amor salvífico e purificador de Deus[7]. O purgatório é esse juízo de purificação que Deus nos concede em vida e também na hora da morte.[8]

Hoje se as pessoas parassem para vislumbrar a morte como um Encontro Pessoal com o Criador elas jamais temeriam o purgatório, pois diferentemente dos conceitos medievais, o purgatório não é a antessala do inferno, mas a antessala da eternidade do Senhor; a antessala do céu.

Balthasar afirma que o acesso a vida eterna de Deus foi-nos aberto por Jesus Cristo; e isso está correto, pois Jesus, mesmo sendo Deus imanado não fugiu à realidade absoluta e certa de todos os homens. Ele assumiu aquilo que somos e sempre seremos humanos fracos e limitados. Ele assumiu a nossa História para mostrar-nos que Deus não nos julga de acordo com as nossas convicções, pecados, preceitos, mas olha para nós com um olhar restaurador e santificador[9]. Por isso o enviou ao mundo para salvá-lo (Jo 3,16).

Também Blank[10], oferece-nos um bom entendimento desta realidade de salvação de Deus em Jesus ao mundo:

“Deus quer a salvação, a evolução plena da criatura humana. Deus quer a plenificação dela. E, para que possa esta alcançá-la, Deus lhe oferece toda ajuda. Assim, Deus age na morte humana, não como uma maneira de condenar, mas para perdoar”.[11]

 

No momento da morte humana, Deus oferece “DE GRAÇA” tudo o que falta para a criatura humana entrar na esfera divina. Isto é purgatório, esse oferecimento de redenção e salvação. Todavia, Deus jamais interfere na vida humana, pois este deu-lhe um livre-arbítrio de aceitação ou recusa da sua Graça. Deus respeita a personalidade e a liberdade do ser humano. Quer dizer: Deus não força o Homem a aceitar nada contra a sua vontade, pois Ele é amor e quer amor. E o amor não se deixa constranger, mas amor se conquista.[12] A pessoa deve aceitar o presente que Deus lhe oferece, pois é dado livremente por amor.

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Ao concluir, podemos dizer, em concordância com o pensamento de Von Balthasar e os outros autores, que o Filho de Deus feito homem, inseriu sua intemporalidade em nossa temporalidade, Ele que é eterno, quis se fazer um de nós, para assim resgatar a humanidade, contra toda a lógica filosófica e experimentou e viveu a história humana: conhecendo-a e levando-a em si. Foi provado em tudo de maneira semelhante a nós, menos no pecado. Avancemos, pois, em nossa caminhada rumo ao céu, tendo como exemplo de vida esse Cristo que se fez presente entre nós, com fé, confiança e esperança de algum dia obter a misericórdia de Deus e assim podermos contemplá-lo em seu trono de graça.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BALTHASAR, Hans Urs von. Escatologia em nuestro tiempo – Las cosas últimas del hombre y el cristianismo. Madrid: Encuentro, 2008.

____________. Teologia da História. São Paulo: Novo Século, 2005.

BLANK, Renold. Reencarnação ou Ressurreição – uma decisão de fé. São Paulo: Paulus, 1995.

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcanti. Petrópolis: Vozes, 1986 (livro I); 1989 (livro II)

LIBÂNIO, J. B. Ética, Escatologia e Utopia. (Artigo) Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=93. Acesso em 14 de maio de 09.

LIBÂNIO, João B.; BINGEMER, Maria Clara L. Escatologia cristã. – Série: A libertação na História. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 242.

RAHNER, Karl. In: MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do Século XX. Volume 1 – Os teólogos católicos. São Paulo: Paulinas, 1979. pp. 113-114.



[1] LIBÂNIO, J. B. Ética, Escatologia e Utopia. (Artigo) Disponível em http://www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=93. Acesso em 14 de maio de 09.

[2] BALTHASAR, Hans Urs von. Escatologia em nuestro tiempo – Las cosas últimas del hombre y el cristianismo. Madrid: Encuentro, 2008, p. 12.

[3] Anotação da aula de escatologia e novíssimos, 2009, Pe. Donizete.

[4] Ibidem, p. 15

[5] RAHNER, Karl. In: MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do Século XX. Volume 1 – Os teólogos católicos. São Paulo: Paulinas, 1979. pp. 113-114.

[6] HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcanti. Petrópolis: Vozes, 1986 (livro I); 1989 (livro II)

[7] LIBÂNIO, João B.; BINGEMER, Maria Clara L. Escatologia cristã. – Série: A libertação na História. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 242.

[8] Op Cit. p. 244.

[9] BALTHASAR, Hans Urs von. Teologia da História. São Paulo: Novo Século, 2005.

[10] BLANK, Renold. Reencarnação ou Ressurreição – uma decisão de fé. São Paulo: Paulus, 1995.

[11] Op. Cit. p. 115

[12] Idem. pp. 115-116

 
25/08/2009
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13/10/2010 - Encontro Vocacional

ORAÇAO PELAS VOCAÇÕES INACIANAS

 

 

Ó Jesus, Divino Pastor, Tu que nos chamaste à vida, tornai-nos sensíveis ao chamado para o serviço do Reino. Desperta nos jovens a generosidade de coração para serem santos e santos no Amor e para que sejam testemunhas radicais de Jesus Cristo. Que ao responderem Sim à Vida Consagrada Inaciana, busquem serem sinais vivos de Cristo libertador, na total disponibilidade a Deus, no Serviço Missionário da Igreja. Cativados pelo carisma inaciano, Dom do Espírito Santo ao nosso Pai Fundador, sejamos impulsionados para a missão de levar o mundo em desordem à Unidade na Vida Divina. Ó Jesus, Divino Pastor, que a vivência do Carisma Missionário Inaciano ajude-nos a ser sinais da vida e da esperança, a exemplo de nosso Patrono, Santo Inácio de Antioquia. Que como irmãos, irmãs, leigos consagrados ou sacerdotes, sejamos uma só família em sintonia com o Tom de Deus, fiéis à vocação a que fomos chamados! Que nossa Consagração seja uma forma especial de pertencer a Cristo, na adesão amorosa ao Evangelho e ao Reino de Deus. Como Maria, Mãe do Divino Pastor, cada um de nós possa dizer sim à sua vocação.

 

Amém!

 

HINO A SANTO INÁCIO

Imitador dos apóstolos, seu sucessor em seus tronos. Praticando as virtudes achaste, inspirado que foste por Deus, o caminho da contemplação, dispensando assim fielmente, a Palavra que é a Verdade. Pela fé derramaste o teu sangue, óh pontífice e mártir Inácio, pede ao Senhor que nos Salve!.

Amém

ORAÇÃO DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA

Deus, Todo Poderoso, nós bendizemos Vosso Nome pelo bispo e mártir Inácio de Antioquia, que ofereceu-se como trigo a ser moído pelos dentes das feras, a fim de apresentar-se a Vós como um pão puro em sacrifício. Aceitai, nós vos pedimos, a doação que fazemos de nossas vidas e dai-nos participar da oferta pura e sem mancha de Vosso Filho Jesus Cristo, que Convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo!

Amém!

 
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