Daniel 7,9-10.13-14; Apocalipse 12, 7-12; João 1, 47-51
No livro do Apocalipse a história tem duas dimensões: a terra e o céu. A terra é a dimensão visível e corpórea da história. O céu é a dimensão invisível e transcendente da mesma história. Não há duas histórias, mas uma só com duas dimensões. Histórico não é somente o que se toca, se vê ou se ouve, mas também essa dimensão profunda e transcendente, que não se vê, mas que é também importante, e inclusive a mais importante. O Apocalipse é a revelação ou des-ocultamento dessa dimensão transcendente da história. O mundo dos anjos não é outro mundo, mas justamente essa dimensão transcendente de nosso mundo. Os anjos nos fazem presente essa dimensão de nossa história.
Em Ap 12, 7-12 temos um relato mítico (vv. 7-9 e v. 12) e um hino litúrgico (vv. 10-11). O hino nos dá a interpretação do relato mítico. O mito no Apocalipse é sempre histórico, mas é uma narrativa da história com símbolos e não com conceitos. Não podemos opor mito à história e desprezar os mitos. A função do mito é a reconstrução da consciência, da identidade e da esperança da comunidade. Todos os hinos litúrgicos do Apocalipse oferecem a chave hermenêutica para interpretar os mitos, como a comunidade vivia, sentia e interpretava o que se expressava nos mitos.
O mito que o texto de hoje nos oferece (vv. 7-9 e v. 12) nos apresenta uma impressionante guerra no céu. Enfrentam-se, por um lado, Miguel e seus anjos; por outro lado, o Dragão e seus anjos. Miguel é um nome hebraico que etimologicamente significa "quem como Deus". O Dragão, conforme o mesmo texto (v. 9), é a antiga serpente, o diabo, satanás, o sedutor do mundo inteiro. Nesta guerra do céu, satanás é derrotado e lançado do céu para a terra, fato que provoca grande alegria no céu e terror na terra (v.12). No hino litúrgico (vv. 10 e 11) se interpreta este mito. Os que derrotam a satanás são os mártires. Estes podem derrotá-lo, graças ao sangue do Cordeiro (o martírio de Jesus na cruz) e graças ao testemunho que eles mesmos deram. A derrota de satanás torna possível a chegada da salvação, do poder e do reino de Deus e de Cristo. Satanás é jogado do céu para a terra, o que significa que já não tem poder nessa dimensão transcendente da história. Agora só tem poder na terra, ou seja, nessa dimensão visível e política da história, onde age através da besta e do falso profeta (cap. 13). Satanás foi despojado de todo poder transcendente pelo martírio de Cristo e seus mártires.
Quem é Miguel? Uma figura mítica, símbolo do Povo de Deus ou é um ser angélico com individualidade ou personalidade própria? A partir da Bíblia é impossível responder a esta pergunta. Os teólogos, posteriormente, irão elaborar uma reflexão, com diversas doutrinas, sem grande fundamento bíblico. Penso que o mais importante não é resolver este dilema, se os anjos seriam mitos ou entes personalizados. O mais importante na questão dos anjos, é descobrir essa força transcendente de Deus, que a Bíblia identifica como anjos. Os anjos nos fazem sentir essa dimensão transcendente da história e isso é finalmente o mais importante. Negar a existência dos anjos seria negar essa dimensão, seria reduzir a história a um puro empíreo terrestre, a um mero confronto de poderes políticos e econômicos. Mais importante que os anjos, é o mundo de Deus que os anjos tornam presente.
Junto a Miguel aparece também Gabriel, que significa "a força de Deus", e Rafael, que é “Deus cura”. Eles cumprem diferentes missões de Deus na terra. O autor bíblico utiliza figuras angélicas para evitar apresentar a Deus agindo diretamente na terra. No evangelho de João 1, 47-51 aparece esta função dos anjos, especialmente no v. 51: "verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem". O céu está aberto, quando há um tempo de revelação, quando o mundo transcendente de Deus na história está patente. Quando os céus se fecham, é tempo de obscuridade e de incerteza, pois não há revelação de Deus. Com Jesus, os céus se abrem e os anjos sobem e desce sobre Jesus; isto quer dizer que todo o mundo transcendente se faz visível. Esta idéia está tomada de Gn 28, 10-17, o sonho de Jacó, em que se vê uma escada que une a terra ao céu e por ela os anjos sobem e descem.
A história não é só o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade, que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. O mundo dos anjos não é outro mundo, mas a dimensão transcendente de nossa história. Na Bíblia se evita apresentar a Deus agindo diretamente na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. Aí onde aparece um anjo, é Deus mesmo quem age.
O anjo Miguel, cujo nome significa "Quem como Deus", aparece no Apocalipse numa guerra frontal com satanás, que é derrotado e jogado à terra. Miguel aqui representa os mártires, que derrotaram a satanás, graças ao sangue do Cordeiro e ao testemunho que deram. Gabriel e Rafael, são outras representações históricas de Deus. Gabriel significa "força de Deus" e Rafael "Deus cura".
No evangelho de João se nos diz que os céus estão abertos e os anjos sobem e descem sobre Jesus. É o sonho de Jacó que aparece em Gn 28, 10-17. Crer nos anjos é crer na presença transcendente de Deus na história. Por detrás de cada pessoa e de cada fato libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente. O contrário é satanás, que representa o mistério da iniqüidade detrás das pessoas e estruturas opressoras. A luta dos anjos contra os demônios é a representação simbólica da luta transcendente entre o bem e o mal (leia-se Ef 6, 10-20).
Fonte: Centro Bíblico Claret